Revista nº 353 – Set/1999 ( A mulher )


CARTAS A CRISTINA


A Mulher

Prezada Amiga:

O tema que hoje vamos estudar é duma transcendência enorme! As pessoas que não estejam iniciadas nos mistérios da vida e da morte vão ter dificuldade na sua compreensão; mas nem por isso havemos de ficar em silêncio! A nossa intenção é tirar o alqueire de cima da Luz, para que todos a vejam; e por isso procuramos fazer, mesmo contra a vontade duma grande multidão de "cegos que não querem ver", e que são os piores e também os mais infelizes.

Cristo, que tem sido obscurecido pelo fanatismo nascido da ignorância, ordenou a todos aqueles que haviam de continuar a difundir a sua doutrina emancipadora da Humanidade, que não colocassem a sua luz, o seu saber, debaixo do alqueire, guardando-o, egoisticamente, para si mesmos, mas que a pusessem no velador ou em cima da mesa, para que todos vissem e compartilhassem dos seus divinos benefícios. E nós, amorosamente cristãos, sem preocupações de carácter religioso, mas ansiosos de pôr o que sabemos ao serviço dos nossos semelhantes, sentimos alegria sempre que o podemos fazer.

A deformação religiosa induz nos crentes a superstição, a faceta mais perigosa da ignorância, por que os leva a rejeitar a luz. E assim ficam atemorizados e enfraquecidos, tornando a sua evolução mais difícil e dolorosa, prolongando-a por maior número de vidas e de mortes. Desse erro nasceu o materialismo, que levou grande número de indivíduos ao desinteresse pela religião; e outros, mais cultos, ao materialismo científico, outro obstáculo ao conhecimento de grandes verdades que apressam o desenvolvimento intelectual e o desabrochamento das qualidades que enobrecem os seres humanos.

As pessoas dotadas de boa estrutura mental não aceitam a superstição, que só pode enfraquecer as energias necessárias à luta pela evolução que todos procuramos, inconscientemente, na vida terrena.

Os textos sagrados estão cheios duma luz profunda, mas escondida nas fórmulas simbólicas em que foram escritos! Por este motivo, para os compreender, é indispensável um conhecimento especial, que poucas pessoas são capazes de buscar.

O primeiro livro da Bíblia, o Génesis, explica-nos como a vida começou na Terra, e como o homem, a humanidade, ali apresentada sob o nome ADÃO, iniciou a sua primeira fase de desenvolvimento, num tipo que era andrógino; e na sua segunda fase, como apareceu a mulher, e como de tudo isso Deus, o Supremo Criador, deixou a memória impressa no corpo masculino! Porém os tradutores do original hebraico, desconhecedores da sabedoria escondida nos escritos de estilo simbólico, adulteraram-no e obscureceram assim a verdade contida nele.

No original está escrito: "E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea o criou"1. E o tradutor acrescentou um "s" ao artigo "o", pluralizando-o. E assim, em flagrante discordância gramatical, o que era singular, passou a ser plural!

Deus não é macho nem fêmea, porque não tem um corpo feito de terra, como nós. Ele é só divindade. Por esse motivo tem as duas polaridades, os poderes de criar, como nós os temos também no estado espiritual. Porém, a existência desses poderes não obriga a possuir órgãos de reprodução, porque tais órgãos emergem de uma necessidade meramente física, própria das condições físicas, terrenas. Por este motivo, Deus, ao criar o arquétipo (ou molde) para o corpo que o homem, a humanidade, havia de possuir, colocou nele um órgão correspondente a cada polo, apropriado à sua função criadora; e como o Ego, ou Espírito, possui, tal como Deus, os dois pólos ou poderes criadores, o ser humano já foi, ao mesmo tempo, macho e fêmea!

Todavia, não tinha outros órgãos preciosos, como o cérebro e a laringe, capaz de materializar em sons os pensamentos. Por este motivo, resolveu o Criador alterar o modelo do corpo humano E fê-lo retirando-lhe um sexo, reservando a energia polar que lhe correspondia para formar os órgãos que tanta falta faziam para dar um impulso mais forte à evolução humana: o cérebro e os órgãos da voz. O Génesis conta-nos o facto nestes termos:

"Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma adjutora".

E, mais adiante: "Então o Senhor Deus fez cair um sono profundo sobre Adão, e este adormeceu: e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne no seu lugar"2.

Mais uma vez o tradutor, não atinando com o significado da palavra TSELA, escreveu COSTELA, errando o sentido da palavra, cuja tradução seria "costado", um lado ou polo e não uma "costela". E costado representa um ponto forte, portanto um poder, e não um osso do tronco. Porém o autor do Génesis parece ter previsto a incompreensão e mencionou a chave do enigma, escrevendo a seguir: "e cerrou a carne em seu lugar", o lugar donde foi retirada a "tsela".

Todos verificamos que os corpos, masculinos e os femininos, trazem o peito igual e assim se conservam até perto da puberdade, altura em que o feminino se modifica pelo desenvolvimento dos seios, enquanto que o masculino fica no mesmo estado; os mamilos masculinos são zonas de sensibilidade apenas à dor, enquanto que os femininos são zonas de grata sensibilidade, como era indispensável a uma perfeita entrega da mãe à nutrição do seu filho.

No tronco do homem existem todas as costelas! Portanto, a alteração que Deus fez não foi no tronco! Deus tirou uma "tsela" e cerrou a carne nesse lugar, indicando o local exacto, que é o escroto, sítio onde estava, na vida anterior, o sexo feminino. Aí é que está o vestígio bem saliente de a carne ter sido cerrada, por haver sido suprimido o sexo feminino.

Examinemos agora o processo usado para tal operação:

Os arquétipos são feitos de éter; portanto, Deus fez regressar ao estado espiritual todos os egos (ou espíritos) e depois alterou o modelo do corpo humano, de modo que os egos, ao renascer, trouxessem um sexo apenas, mas também um cérebro para pensar e orientar a sua vida, e voz para materializar o produto do cérebro, que é o pensamento.

Desta maneira deu-se à evolução um enorme impulso e apareceu, então, o homem e a mulher, a mulher que o homem tão mal compreende e estima!

Quando será que as religiões, postas ao serviço de um mais perfeito desenvolvimento do ser espiritual e físico, ensinarão aos seus adeptos que os corpos são formas transitórias, mortais, mas que os espíritos, que vivem dentro dessas formas, são eternos, porque são filhos de Deus? Não resultará dessa obra uma compreensão mais perfeita, um respeito mais profundo, maior harmonia social, uma felicidade mais ampla?

Estamos convencidos de que a nova Era que se aproxima, a Era do Aquário, será inteiramente consagrada à dignificação da mulher e, consequentemente da humanidade.

A separação dos sexos não foi operada somente na humanidade, mas em todas as espécies animais e até em muitas plantas! Daí a necessidade da união de sexos opostos para ser possível a sua reprodução.

A forma feminina parece destinada ao sacrifício pela masculina, como se vê por toda a parte. É um fenómeno biológico que terá de ser corrigido, na medida em que a evolução avançar. Mas enquanto esse avanço evolutivo não atingir o grau necessário, o macho há-de perseguir a fêmea e esta será, a maior parte das vezes, vítima e culpada!

Separados, os sexos estão incompletos! E, porque a mulher tem o que foi retirado ao homem, este, quando é normal, persegue-a com o fim de se completar, o que consegue pelo sacramento do matrimónio, que os torna a mesma carne!

A palavra "sacramento" revela-nos um profundo mistério, que consiste na transferência de vida que o homem faz do seu corpo para o da mulher, tornando o sangue e a carne de um iguais aos do outro. Vejamos como se realiza o sacramento matrimonial, e como deve ser honrado:

Nos extremos da espinha têm os seres humanos os seus órgãos criadores: no cimo está o cérebro, a mente criadora de pensamentos e os órgãos da voz, que nos permitem materializá-los em sons, que são as palavras, capazes de tornar conhecidos os pensamentos; no extremo inferior, das últimas vértebras, que formam o sacro, saem os nervos que vão para os órgãos genitais, formando neles os elementos criadores, sem os quais os seres ficam impedidos de reproduzir os seus corpos! E porque o poder de criar novos corpos tem a sua origem nas últimas vértebras da espinha, soldadas umas às outras e chamadas sacro, a transferência da vida do corpo masculino para o feminino é um sacramento!

Da mistura do sangue vem o sentimento de posse que inconscientemente se invoca, pois tanto o homem como a mulher intitulam-se senhores um do outro, e por isso afirmam: a minha mulher, o meu marido!

É pena que as causas desta ideia de posse não sejam conscientes, pois teriam maior carinho e respeito um pelo outro. Seriam mais felizes. A mulher não seria olhada como uma propriedade do marido, mas como o seu complemento indispensável. E então o respeito e a colaboração entre ambos seria duma grande perfeição.

A mulher consciente nunca permitirá ao homem que a escravizem e, pacientemente, convencerá o seu companheiro do erro que comete ao tentá-lo.

Perante Deus, a mulher e o homem são, antes de tudo, irmãos, pois o criador de ambos é o mesmo; ambos são iguais no estado espiritual e só no corpo são desiguais, mas interdependentes. E, os que não reconhecerem e respeitarem esta interdependência, pagarão por muito duro preço o seu desvio!

A mulher não existe para ser uma propriedade do homem, mas sua cooperadora, a sua outra metade, o meio pelo qual receberá alegria e satisfação de alma, que de outro modo não poderá ter.

A mulher e o homem devem ter direitos e deveres perfeitamente iguais.

O homem actual, noutra vinda à Terra, será provavelmente mulher; e a mulher, quando voltar a renascer, virá certamente homem. Por este motivo no corpo do homem sempre estão patentes os vestígios de ter sido mulher! Atestam o que afirmamos os resíduos de seios que todo o homem tem, e a tal cicatriz que se encontra no sítio onde teve o sexo feminino.

De vida em vida cada um de nós recolhe os frutos do que semeou, com as suas acções, em vidas anteriores, e por assim acontecer cada um traz o seu Destino marcado, uma espécie de programa de estudos que vão da escola primária até à universidade.

Assim como semeou recolherá. Na esperança de me teres compreendido bem, termino esta carta.

Teu, do coração,

Cristófilo

 

1. Bíblia Sagrada, tradução de João Ferreira de Almeida; Gén. 1,18.
2. Gén. 1, 21.

Fonte: Rosa Cruz

floyd
Imagem Pink Floyd 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s