…”O Diabo não Existe”


Filosofia


O Diabo não Existe

É frequente ouvir dizer: “foi obra do diabo”; “foi o diabo”; “traz o diabo no corpo” e tantas outras alusões ao diabo como se fosse uma entidade real e poderosa.

A palavra “diabo” foi importada do paganismo. Naquele tempo, em que a humanidade estava na sua infância, foi-lhe ensinado que existia uma entidade que perseguia e tentava a todos os homens levando-os a praticar o mal para os colocar fora da graça de Deus.

(…)

Nesse recuado tempo, a humanidade não conhecia a Terra e supunha que o hemisfério celeste se apoiava nos rochedos dos montes e no horizonte visual; e que para além de tais limites existia o espaço infinito para onde eram conduzidas as almas dos que morriam, que depois seriam transportadas pelo barqueiro do inferno na sua tenebrosa barca – Caronte.

Os povos pagãos acreditavam na existência de tal entidade, que se apoderava das almas ao deixarem os corpos. Depois, levavam-nas para as regiões que merecido conforme o seu procedimento na vida terrena.

Depois de morrer podiam errar durante cem anos antes de ocupar as regiões que lhes eram destinadas! Então, uma parte seguia para as margens de um rio terrível, o Aqueronte. Era ali que um barqueiro, de nome Caronte, transportava para os seus destinos todas as almas que lhe pagassem o transporte! Ora, a crença na existência do diabo despertava no homem um certo grau de temor. Era um modo de evitar que cometesse os maus actos a que chamamos pecados.

(…)

Diz-se às vezes que um homem anda com “o diabo no corpo”. Esta alusão refere-se ao facto de essa pessoa cometer habitualmente actos maldosos – ou, então, sofrer de obsessão espiritual.

O mal tem suas raízes na ignorância. No Universo não há mal (mal natural) que não seja o resultado da ignorância (mal moral). No Universo só há um poder que é Deus – o Bem.

Os males aparentes não são da responsabilidade de uma entidade chamada “diabo” mas, simplesmente, a ausência do bem; como as trevas são a ausência da luz.

Se o homem está disposto a aprender as lições que a ignorância lhe proporciona, pode estar certo que chegará a uma sabedoria mais alta. Quando as lições do mal forem todas aprendidas, a ignorância desaparece e o “diabo” deserta.

(…)

A desordem é uma negação do bem, e onde há o bem não pode haver desordem, porque a desordem é o mal, e este é a mentira, a difamação, a delação, ou seja a personificação do diabo.

O “diabo” só existe na consciência dos que andam afastados do bem.

Tudo no Universo se encaminha para bem, ainda que muitos julguem que assim não é. Entre o bem e o mal o conflito é eterno na vulgar acepção do termo. O mal é condenado para sempre, e para sempre condenado aos tormentos que acompanham a desordem.

Aos teólogos pertence, neste capítulo, uma parte da ignorância em que vive, religiosamente, a humanidade; pois, com a autoridade que possuem como evangelizadores, apresentam ao povo o “diabo” e o Inferno como um ser e um lugar realmente existentes; e, assim, os que não lêem os Evangelhos acreditam nesta história como sendo uma verdade.

(…)

O Inferno e o “diabo” foram importados do paganismo. E como tais são alegorias que a humanidade do presente século repele. Apresentar à humanidade actual uma religião que foi adaptada para o gentio, é não acreditar na evolução geral do planeta.

Jesus, dirigindo-se aos judeus, disse: “Vós tendes por pai o diabo e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele foi homicida desde o princípio e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira” (Jo 8, 44).

“Sois filho do diabo”: isto significa que eram filhos do mal, do desejo, das paixões, do orgulho, da inveja, do ódio, do rancor; enfim do pecado.

(…)

O “diabo” é o mal; e o mal é a desordem. Logo, em presença da ordem, a desordem é passageira.

A ordem é obra de Deus, e a desordem não pode existir no Universo de Deus, Se a desordem não pode existir, o diabo que personifica o mal, também não existe.

A desordem pode apresentar-se a um ou outro, mas não é geral, porque se o fosse, sendo ela a negação do bem, o Mundo caminharia para o Caos.

O “diabo” foi assassino desde o princípio, diz o Evangelho; e foi para destruir a influência deste adversário do bem, que veio Jesus. Foi este homem da Verdade que descobriu e anulou o pecado, a doença, a pobreza, a traição, a escravidão, a morte, etc.

Todos os flagelos são causados pelos pecados dos homens, e não por essa imaginária entidade vulgarmente conhecida pelo nome de diabo. Onde há virtude não existe o diabo. Este só tem existência na consciência dos que se afastam do bem.

(…)

A crença na existência do “diabo”, como entidade, é um erro, é uma superstição, é a ignorância. Derrube cada um os muros de preconceitos, do amor-próprio e do erro, e abra a janela do seu interior à radiosa Luz da Verdade, e então, o diabo fugirá dessa personalidade para nunca mais aparecer.

(…)

Aproximamo-nos da Nova Idade; e quando tivermos alcançado o limiar desse período a religião será o verdadeiro Cristianismo que, infelizmente, tão corrompido se encontra por dogmas gratuitos e por velharias. Estamos na Época das mudanças, e uma demolição das condições antiquadas se está operando para outras se construírem de novo.

Através desta tumultuária fase da vida da humanidade, cumpre-nos o dever de pregar o Evangelho, mostrando a mentira à consciência do homem, para que o pecado ou erro desapareça, e a humanidade passe a ser feliz e livre da escravatura mental do tal imaginário diabo.

(Resumo do texto publicado)

A. A.

 

1 A palavra grega daímon designa uma força ou uma potestade que se encontra além das possibilidades humanas, de domínio e compreensão, capaz de influenciar tanto para o bem como para o mal. Só a partir do latim cristão daemonium é que a palavra “demónio” passou a significar “espírito maligno, diabo, satanás”.

Fonte: Revista Rosa Cruz

Abril/ Maio/ Junho 2008

( recebo a revista há alguns anos; é só para divulgar )


 

2 thoughts on “…”O Diabo não Existe”

  1. De repente fiquei com a sensação que estava a ouvir um discurso do Mestre e Professor Leitão de Aveiro, ex-sacerdote e que durante dois anos me instruiu no Latim e no Grego… Ao ler este este texto foi um relembrar. Juro que é quse ipsis verbis o que ele dissertou nessa época (1989 e 1990)

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