Pai Natal…

y1ppW8W4CF7Hg65WSCiHnfV1pVujBi4VTEW

História do Pai Natal

 

Ninguém sabe quando nasceu o Pai Natal mas todos o conhecem. Grandes e pequenos deixam-se cativar pela ternura da sua imagem.

O Pai Natal transporta-se, como é tradição, no seu trenó voador, puxado por oito renas. Vem de longe – do Polo Norte, dizem – onde há renas e o frio é tão intenso que penetra até aos ossos.

Vamos levantar o véu sobre este mito maravilhoso.

S. Nicolau, o Bispo Turco

De Nicolau, bispo na Turquia, sabe-se tão pouco que até se duvida que tenha existido. Tudo o que sobre ele se diz são relatos lendários da apologética. Julga-se que pertenceu a uma família endinheirada e que terá nascido no ano 280, na Ásia Menor. Chamavam-lhe o "bispo menino" por ter sido ordenado aos dezanove anos.

A sua popularidade devia-se à grande generosidade para com as crianças, numa época em que ninguém se importava com gente de palmo e meio.

Na Idade Média, a figura de S. Nicolau foi associada a diversas lendas locais. Algumas, na Alemanha, falavam dele como um ser pequenino, parecido com os gnomos, os espíritos elementais ou da Natureza. Ainda no início do actual século circulavam postais ilustrados que mostravam o Pai Natal (S. Nicolau) como um destes anões, os guardiães dos tesouros escondidos na Terra – que os irmãos Jacob e Guilherme Grimm utilizaram nas suas histórias infantis (recorde-se A Branca de Neve e os Sete Anões).

Desde meados do século XII até à Reforma protestante, distribuiam-se presentes em nome de S. Nicolau, na noite de 5 para 6 de Dezembro. Depois da Contra-Reforma católica, materializada no concílio de Trento (1545-1563) surgiu o Christkind, isto é, o Menino Jesus. Tinha idêntica missão, mas em data diferente: no dia 25. Por ironia do destino, o termo Khristkindel evoluíu até se transformar em Riss Kringle, que é dos nomes alemães do Pai Natal.

Há quem pretenda ver na lenda do Pai Natal um sinal de "projecção astral" (a separação do espírito do corpo físico) e a associe às teorias psicológicas das experiências "fora do corpo". Rogan Taylor sugere que a lenda do Pai Natal, que voa no seu trenó puxado por renas, pode ter evoluído de uma situação real: a intoxicação causada por cogumelos que produzem alucinações, no Nordeste da Sibéria, usados pelos chamanes. Os membros das tribos dessa região dependem das renas como alimento e vestuário e os cogumelos tóxicos fazem-nos "voar". Até mesmo a roupa do Pai Natal, vermelha e branca, faz lembrar a cor desses cogumelos1.

De facto, na Holanda, no século XIII, nasceu nas escolas conventuais o costume de um monge, disfarçado para representar o venerável bispo, distribuir prémios aos bons alunos. Depois, no século XVI-XVII, este hábito, comum a todos os lares, foi associado à descida do Pai Natal pelas chaminés das habitações.

A tradição espalhou-se um pouco pela Europa, atravessou o Atlântico e chegou à América, onde o Pai Natal mudou de nome: passou a chamar-se São Claus. Um conhecido escritor de Nova Iorque2 deu o impulso definitivo à tradição, com a ajuda de uma revista infantil, a St. Nicholas, que publicou até 1940.

Em 1931, o aperfeiçoamento das técnicas tipográficas permitiu que a figura do Pai Natal fosse mais bem conhecida, por meio da imprensa, de cartazes publicitários e de postais ilustrados. Foi nessa altura que uma empresa norte-americana, a Coca Cola Company, associou a fígura do Pai Natal aos seus cartazes publicitários (inicialmente concebidos pelo caricaturista Thomas Nast com o aspecto de gnomo ou anão, e depois transformado por Habdon Sundblom, uma estrela na indústria publicitária. O modelo foi um aposentado, chamado Lou Prentice fixando, em definitivo, a sua imagem, que é a que hoje vemos correntemente.

O Natal em Portugal

Em algumas localidades do país, como no Alto Minho, o Natal é o herdeiro das festas dos mortos. Nesta região, a tradição dizia que os defuntos compareciam, na noite da consoada, na casa onde viveram.

Em Guimarães, Rio Tinto, terras do Barroso e arredores do Porto, a ceia da consoada não se levanta, para que as "alminhas", que nessa data regressam a suas casas, se regalem vendo as iguarias dispostas3.

O manjar ritual do Natal, em quase todo o país, inclui alimentos confeccionados com abóbora, na conhecida variedade "abóbora-menina". Em Oliveirinha (Aveiro) e Coimbra, o manjar ritual era de papas de abóbora. De um modo geral, admite-se que as sobremesas e bolos feitos com abóbora (a filhó), constituem alimentos relacionados com este culto. A origem do culto dos mortos associado ao Natal parece estar relacionado com uma festa dos Celtas, os povos que habitaram antigamente a região. Esta cerimónia, que data do Neolítico, está ligada ao conhecimento dos equinócios e dos solstícios.

O ano celta começava em Novembro. Celebrava-se o dia do Ano e também a Festa dos Mortos. O cristianismo retomou esta prática no século XI, a 2 de Novembro.

Na festa céltica celebrava-se, durante três dias, o regresso dos mortos à terra. A mesa ficava guarnecida e a porta entreaberta, para que pudessem entrar, repousar e "comer". Era o encontro entre o mundo divino e o mundo humano4.

A Passagem pela Porta Estreita

Baseado no princípio hermético "como é em cima, é em baixo", o homem religioso considera a sua casa de habitação um microcosmo. E o corpo é-o, aliás, também. Por isso, cada uma dessas imagens é susceptível de receber uma "abertura" superior, que torna possível a passagem para um outro mundo. À semelhança do que acontece na Índia, há uma crença, abundantemente espalhada pela Europa e Ásia, que a alma do morto sai pela chaminé ou pelo telhado5.

Habita-se o corpo, da mesma maneira que se habita uma casa ou o cosmo. O simbolismo arcaico da passagem do Pai Natal pela chaminé, ligando o Céu à Terra, persiste no mundo moderno e recorda a ideia da porta ou da "ponte estreita como um cabelo" da Visão de S. Paulo6, que liga o nosso mundo ao Paraíso e que abundam nos rituais iniciáticos e funerários7.

De facto, a iniciação, como a morte e o êxtase místico, equivale à passagem de um modo de ser a outro e opera uma verdadeira mutação ontológica.

A história do Pai Natal é um dos poderosos mitos modernos. Como diz Max Heindel, todos os mitos são veículos de verdades espirituais, veladas por alegorias, símbolos e imagens. Ainda hoje realizam a sua função8, principalmente depois de o cristianismo das sociedades industriais ter perdido os valores cósmicos que ainda possuía na Idade Média e de a sensibilidade religiosa das populações urbanas ter ficado profundamente empobrecida.

A figura do Pai Natal afastou-se gradualmente da função moral e espiritual. Foi apropriada pela sociedade comercial e associada ao poder de compra e bem estar material das pessoas. Tomou-se o exemplo perfeito de uma sociedade de comerciantes que confunde a bondade com o amor e o dispêndio de dinheiro, e a alegria com o consumo. Todavia, foi a laicização do Pai Natal pela sociedade moderna que lhe permitiu a sobrevivência. Apesar de consumista, insolidária e egoísta, a sociedade actual transformo-o num símbolo universal permitindo-lhe, apesar de tudo, continuar a transmitir a mensagem que ajuda a sonhar com os valores cósmicos tradicionais associados ao Natal.

De facto, o Pai Natal contribui para que todos participem do "espírito de Natal", sem estabelecer confrontos étnicos ou religiosos e, mais ainda, sem pôr em causa tudo o que se faz no resto do ano. Com poesia, conserva o seu valor mágico. E com ele arranca-nos à nossa mediania.

O que realmente interessa, é que vejamos na poesia e no mito o que eles procuram ser – uma maneira de descrever o sentido, o significado último e espiritual da história. – e não apenas uma narrativa literal. Devidamente entendido, o significado do Pai Natal e do solstício de Inverno nunca perderá a actualidade.

Ariel

 

Notas Revista Rosa Cruz

1. Susan Blackmore, Experiências Fora do Corpo, 1982, pág. 157-158.
2. Washington Irving (1783-1859), Knickerbocker’s History of New York, 1809.
3. Ernesto Veiga de Oliveira, Festividades Cíclicas em Portugal, Lisboa, 1984, pág. 207-210.
4. Marcel Moreau, As Civilizações das Estrelas, Lisboa, 1973, pág. 245 e seg.
5. Micea Eliade, O Sagrado e o Profano, Lisboa, pág. 136.
6. Mateus, 7, 14; Kata Upanishade, III, 14.
7. O orifício superior de uma torre indiana tem, entre outros nomes, o de brahmarandhra. Designa a abertura que se encontra no cimo do crânio, o Gólgota, e desempenha um papel capital nas técnicas ióguico-tântricas. É por lá que se liberta o espírito no momento da morte. Cf. Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 2ª ed., pág. 81.
8. Max Heindel, Mistérios das Grandes Óperas, Lisboa, 1998, pág. 76-77.

natal005ya7sw3

 

One thought on “Pai Natal…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s