A Árvore de Natal

 

 

A Árvore de Natal

"Na Idade Média, quando as pessoas ainda eram dotadas de restos de clarividência negativa, aludiam frequentemente aos Gnomos, Duendes e Fadas que vagueiam pelas montanhas e florestas, designando estes seres por espíritos da Terra.

Actualmente, estes relatos são considerados superstições, mas a verdade é que qualquer pessoa dotada de visão clarividente é capaz de ver os pequenos gnomos fabricando a verde clorofila das folhas das plantas e dando às flores essa multiplicidade de matizes delicados e preciosos que constituem a delícia dos nossos olhos"1.

Já nesse tempo, no Norte da Europa, a árvore era um tema simbólico importante no quadro de uma família de mitos bastante rica e difundida. Todos nos recordamos da história bíblica dos tempos primitivos em que o escritor sagrado se refere ao jardim que Deus plantou no Éden e à proibição de o homem comer da "árvore do bem e do mal". Não vamos estudar o que, neste passo bíblico, se considera parte ornamental do texto e doutrina que se pretende ensinar sob a roupagem de uma exposição plástica. O que importa é referir que a imagem da árvore está associada a outras histórias da criação do mundo universalmente difundidas. Algumas são mencionadas por Oliveira Martins na sua obra Sistema dos Mitos Religiosos2. Outras são-nos referidos por Max Heindel em diversas obras. Numa delas refere-se à árvore chamada "Yggdrasil", que é a "árvore da vida" da mitologia nórdica3. Das suas raízes brotava o rio da sabedoria que era guardado por Mimir.

Esta árvore tinha diversas funções. Uma delas era a de ligar entre si as hierarquias espirituais dos nove mundos da cosmogonia nórdica. Um destes mundos era o dos Elfos, outro o dos Vanes, etc. Trata-se de seres elementais, isto é, sub-humanos, muito populares naqueles países. Os Elfos são divindades aéreas; relacionam-se com o ar e os ventos. Simbolizam as forças ctónicas e nocturnas. Segundo os antigos Germanos, o seu trabalho fazia-se em colaboração com os Anões, os génios da terra e do solo, que estavam particularmente ligados às grutas e às cavernas. Lembram-se da eterna história infantil dos irmãos Grimm4, A Branca de Neve e os Sete Anões, originalmente publicada em 1812? Walt Disney roubou-a ao esquecimento, adaptando-a ao cinema na sua primeira longa-metragem, lançada no Natal de 1937. Alterou o enredo original, adaptando-o ao espírito do público americano, menos sensível aos assuntos místicos que o europeu. Os contos de Grimm não se dirigem unicamente às crianças. Para além da compreensão imediata da narrativa, há uma rica informação acerca da espiritualidade popular nórdica, em que o simbolismo dos anões está ligado ao do guardião dos segredos e dos tesouros. Repare-se ainda na transformação física da invejosa Rainha, em tudo semelhante às modificações do Dr. Jekyl da história de Robert Louis Stevenson O Médico e o Monstro (Dr. Jekyl and Mr. Hyde)5.

Há cerca de mil e duzentos anos, antes de o Cristianismo exercer a sua poderosa influência, os Germânicos reverenciavam uma árvore especial, o carvalho e, depois, já por influência cristã, o abeto. Com o tempo, apanhado na engrenagem da civilização, o homem foi perdendo gradualmente a sua capacidade de visão espiritual, e embora o núcleo das tradições antigas persista no tempo, alterou-se, sofrendo umas vezes degenerações, outras reforços e enriquecimentos, tudo segundo as ideias, os costumes, a flora e a fauna dos locais para onde foi transplantado.

O simbolismo dos solstícios e dos dois S. João – o do Inverno e o do Verão – acabou por ficar ligado ao culto da árvore. O solstício do Inverno corresponde ao mundo dos mortos, mas é também o sinal do seu renascimento, estando por isso associado à gestação e à criação. O nascimento de Cristo-Jesus, a "luz do mundo", comemora-se no Inverno. Ao associar o Outono à morte e ao enfraquecimento da força vital no reino vegetal, e consequentemente à diminuição da actividade dos espíritos da natureza, os povos antigos procuravam assinalar a infusão no reino vegetal da vitalidade crística que se verifica no solstício de Inverno, durante a época do Natal. É esta força vital divina, sempre renovada, que irá permitir o rejuvenescimento do reino vegetal no período seguinte, da Primavera e do Verão, que é o tempo da maior actividade dos espíritos da natureza. E comemoravam esta infusão de vitalidade decorando as árvores com pedaços de tecido colorido, pedras pintadas e outros adornos vistosos.

Quando as árvores foram trazidas para dentro de casa a decoração esmerou-se e os enfeites tornaram-se mais variados. As árvores foram ornamentadas com velas e depois com luzes eléctricas, porque foram associadas a Cristo, a "luz do mundo", que se manifestou por meio de Jesus, cujo nascimento é assinalado precisamente no Inverno.

Eis, enfim, quanto a nós, a explicação do simbolismo das Árvores de Natal montadas em quase todas as casas no período natalício: é o resultado do conhecimento concreto da existência de uma hierarquia espiritual – os espíritos da Natureza: gnomos, silfos, etc., – tão querida dos povos nórdicos, representada pelos vistosos enfeites e adornos que fazem as delícias dos nossos olhos e as alegrias do mundo comercial.

 

Ariel

(Texto da Revista Rosa Cruz)

 

 

 

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