A Caminho da Festividade da Páscoa…

O QUE A BÍBLIA NOS ENSINA


As Bodas de Caná

Quando se deixa Nazaré, na Baixa Galileia, e nos metemos no caminho de Tiberíades, a pequena distância daquela cidade e no termo das colinas que a limitam pelo Norte, encontra-se um pequeno povoado de construções árabes. Aos nossos olhos de europeus ocidentais aparecem como construções bíblicas.

No mundo imenso de evocações, que é a Terra Santa, a cada passo se nos deparam lugares que trazem à nossa mente um acontecimento de extraordinário relevo histórico, religioso ou artístico.

Está neste caso a pequenina vila de Caná onde, segundo o Evangelho de João, se operou o primeiro "milagre", ou "sinal" da missão de Jesus1.

Convém notar desde já que de todos os Evangelhos, o quarto, ou de João, é aquele a que se atribui um carácter mais espiritual e simbólico. Mesmo os estudiosos católico-romanos não hesitam em salientar esse aspecto. Ainda recentemente, numa nova edição da Bíblia, se escreveu: "No Evangelho o simbolismo dos factos narrados é tão constante e evidente, que os acontecimentos descritos se não podem ter por reais, senão antes como cenas idealizadas para enquadrar uma doutrina. Esta doutrina oferece tantos pontos de contacto com as ideias filosófico-religiosas do tempo (Fílon de Alexandria, Religiões Orientais) que a estas, e não ao cristianismo genuíno, se tem de ligar o IV Evangelho".

Não representa, portanto, ousadia considerar as bodas de Caná como um modo simbólico de descrever um acontecimento espiritual, aliás de extraordinária importância, uma vez que figura como o "sinal" da missão de Jesus2.

Os estudiosos das doutrinas rosacrucianas, na apresentação que delas fez Max Heindel, estão familiarizadas com o profundo significado das bodas, pois foi um tema largamente abordado por este instrutor espiritual. Igualmente para os cristãos das várias confissões religiosas, o chamado casamento místico é uma expressão muito usada e compreendida pela generalidade dos crentes. Além dos teólogos e místicos, mesmo os artistas de várias épocas tornaram o significado espiritual desse acontecimento acessível a todos.

Do ponto de vista esotérico, as bodas de Caná – assinaladas com um interregno de "três dias"3 – para as quais Jesus e os seus discípulos "foram convidados", foi um acontecimento de alto significado espiritual. Teria sido a celebração da união do espírito humano com a divindade, uma cerimónia iniciática, fim supremo para além das cerimónias preparatórias e iniciações dos mistérios da antiguidade. É realmente digno de atenção verificar que "a primeira actuação pública" se tenha dado numa festa de bodas e que essa actuação consistisse em transformar a água deitada nas vasilhas da purificação em vinho, e este de tal qualidade que causou admiração no próprio mestre-de-cerimónias, entidade certamente conhecedora desta matéria.

Qualquer estudante das doutrinas esotéricas sabe que o vinho simboliza a sabedoria divina4. E não só na doutrina cristã assume este simbolismo, mas igualmente no Próximo Oriente. Para os "sufis"5, por exemplo, o vinho representa, também, a sabedoria divina, aquela que resulta da união mística, do casamento ou bodas da alma com o seu criador.

Jesus Cristo, quando a festa das bodas se ressentia da falta do vinho (sabedoria), transformou o humano e puro saber (água) no vinho da sabedoria divina, que permitiu a celebração completa da festa de união espiritual do homem com o Absoluto.

Mais do que tudo que porventura possamos dizer sobre o simbolismo deste passo do quarto evangelho, melhor será que aqueles que lerem estas linhas, por si mesmo, considerem o seu profundo significado, vivendo intimamente esta experiência esotérica; pois só cada um por si mesmo o poderá fazer e dela colher benefício na medida em que o fizer.

Enos

 

1 João, II, 1-10.
2 O verdadeiro significado das bodas de Caná (e dos textos bíblicos em geral), só pode ser entendido depois de os seus elementos estranhos terem sido peneirados através do crivo dos símbolos e das práticas sociais e religiosas judaicas da época. Se ignorarmos o problema da historicidade do acontecimento, deparam-se-nos situações complicadas. Por exemplo, esta cerimónia não pode ter sido, como aparenta, simples, de pessoas pobres. A existência de um arquitriclino, ou mestre-de-cerimónias, revela o brilho e grandeza do banquete e um número substancial de convidados.
Este número pode ser avaliado pela quantidade de talhas destinadas ao vinho: seis (significando a imperfeição, sete menos um). A capacidade de cada uma das talhas era de três metretas, medida antiga equivalente a cerca de 40 litros. Feitas as contas, isto equivale a aproximadamente noventa dúzias de garrafas modernas. E, não se esqueça, era um fornecimento adicional. Toda esta bebida era suficiente para cerca de setecentos convidados sóbrios, Admitindo que alguns só bebiam por ocasião dos brindes, o vinho dava para uns 1000 convidados!
Regíste-se também o facto de a anfitriã, segundo o costume judaico, ser Maria, a mãe de Jesus. O leitor sabe o que isto significa na tradição judaica.
A transformação da água em vinho também está associado aos fenómenos religiosos (culto) e iniciáticos (mistérios) relativos a Dioniosos.
3 As três fases no caminho iniciático.
4 No A. T., é o símbolo de Israel. A transformação da água em vinho é também uma chamada de atenção ao povo de Israel e da sua possível imersão no cristianismo. Noutra altura João Baptista disse o mesmo: "Pois eu garanto-vos que Deus, até destas pedras pode fazer descendentes de Abraão", Mat., 3, 9.
5 Praticantes do "sufismo", ramo do esoterismo islâmico.

 

fonte:Revista Rosa Cruz

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