CAIM

"…

O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado,

mas a culpa não foi minha, quando vinha para cá surgiu-me um

problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a

esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me

desorientavam, na verdade vi-me em papos-de-aranha para chegar

aqui, ainda por cima não me tinham explicado bem qual destes

montes era o lugar do sacrifício, se cá cheguei foi por um milagre

do senhor, Tarde, disse Caim, Vale mais tarde que nunca,

respondeu o anjo com prosápia, como se tivesse acabado de

enunciar uma verdade primeira, Enganas-te, nunca não é o

contrário de tarde, o contrário de tarde é demasiado tarde,

respondeu-lhe Caim. O anjo resmungou, Mais um racionalista, e,

como ainda não tinha terminado a missão de que havia sido

encarregado, despejou o resto do recado, Eis o que mandou dizer

o senhor, Já que foste capaz de fazer isto e não poupaste o teu

próprio filho, juro pelo meu bom nome que te hei-de abençoar e

hei-de dar-te uma descendência tão numerosa como as estrelas do

céu ou como as areias da praia e eles hão-de tomar posse das

cidades dos seus inimigos, e mais, através dos teus descendentes

se hão-de sentir abençoados todos os povos do mundo, porque tu

obedeceste à minha ordem, palavra do senhor. Estas, para quem

não o saiba ou finja ignorá-lo, são as contabilidades duplas do

senhor, disse Caim, onde uma ganhou, a outra não perdeu, fora

isso não compreendo como irão ser abençoados todos os povos

do mundo só porque Abraão obedeceu a uma ordem estúpida, A

isso chamamos nós no céu obediência devida, disse o anjo.

Coxeando da asa direita, com um mau sabor de boca pelo fracasso

da sua missão, a celestial criatura foi-se embora, Abraão e o filho

também já lá vão a caminho do lugar onde os esperam os criados,

e agora, enquanto Caim ajeita os alforges no lombo do jumento,

imaginemos um diálogo entre o frustrado verdugo e a vítima salva

in extremis. Perguntou Isaac, Pai, que mal te fiz eu para teres

querido matar-me, a mim que sou o teu único filho, Mal não me

fizeste, Isaac, Então por que quiseste cortar-me a garganta como

se eu fosse um borrego, perguntou o moço, se não tivesse

aparecido aquele homem para segurar-te o braço, que o senhor o

cubra de bênçãos, estarias agora a levar um cadáver para casa, A

ideia foi do senhor, que queria tirar a prova, A prova de quê, Da

minha fé, da minha obediência, E que senhor é esse que ordena a

um pai que mate o seu próprio filho, É o senhor que temos, o

senhor dos nossos antepassados, o senhor que já cá estava

quando nascemos, E se esse senhor tivesse um filho, também o

mandaria matar, perguntou Isaac, O futuro o dirá, …"
 
Caim (Saramago)
 
Li a partir do fim e recolhi esta porcaria
Não entendi ainda como foi possivel atribuir um "NOBEL" a um senil que nem escrever sabe!
 

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